sábado, 20 de dezembro de 2008

Notícias do Chade

TCAHD,14/12/2008

Lapia lesi (Olá a todos vós)

Começo por vos agradecer todas as mensagens que me tendes enviado e que são sempre um estímulo à fidelidade e doação total à missão. Costumo ver o meu mail mais ou menos de 15 em 15 dias, mas a net, quando há, é sempre muito lenta e há sempre outros missionários/as à espera. Leio com muito agrado as noticias que me dais, agradeço a oração e guardo as vossas partilhas como um tesouro que apresento ao Senhor na oração. Confesso que as mensagens de PPT não costumo ver, demoram muito a abrir. Se são mesmo importantes peço-vos que ao inicio coloquem uma palavrita pessoal para as distinguir.

Uma das questões que me colocais com mais frequência é se estou bem, como me sinto, como são as pessoas… Cada vez mais compreendo as palavras de Comboni quando ele dizia mais ou menos isto: « A missão é um misto de dores e alegrias, de desespero e de consolações, de situações de vida e de morte… ». As suas palavras são mais justas, mas a ideia é este misto… no momento que vos escrevo ainda sinto no meu corpo os sinais do paludismo. Os últimos 3 dias foram difíceis, com 39, 40° de febre, o corpo dorido, calafrios… mas graças a Deus tenho tudo o que é necessário para poder recuperar e 3 dias depois já me posso levantar e continuar o caminho… penso neste momento aos milhares de irmãos e irmãs nossos que vivem esta mesma doença num contexto bem diferente ! E se fossem esses os maiores « sofrimentos »… mas são muitas mais as razões de alegria. Ainda estou a dar os primeiros passos e apesar das dificuldades sinto-me feliz e com um desejo grande de dar o meu melhor por este povo. E o melhor, o mais belo presente é a Palavra de Jesus que é libertadora e geradora de vida.

Preparamo-nos para a celebração do Natal. Escusado será dizer que aqui não há « nenhum sinal » do natal das luzinhas que vivemos no Ocidente. Porém, no caminho que percorro todos os dias quando vou para a escola aonde estou a aprender a língua Ngambay contemplo o sorriso de tantas crianças que me saúdam. O brilho do seu sorriso é mais brilhante que o mais belo conjunto de luzinhas que possamos encontrar nos nossos hipermercados… um brilho misterioso que aponta para essa divindade que cada um de nós tem em si, independentemente do contexto aonde nasceu ! Recordo de uma forma muito especial uma menina que se chama Denemaji (que quer dizer Bonita menina) de 4 anos. Quando passava via sempre 4 ou 5 crianças que me saudavam « Lapia, Lapia, Lapia », mas havia uma voz que era mais forte, e mesmo depois do meu tímido « Lapia » (e continuava o meu caminho porque não tinha muitas mais palavras para lhes dizer, nem tempo), essa voz continuava até desaparecer com a distância. O mesmo aconteceu, o primeiro dia, o segundo dia… até que no terceiro dia decidi ir um bocadinho mais cedo para a escola de forma a ter tempo para parar um bocadinho e saudar aqueles meninos… Quando me aproximava já ouvia o coro « Lapia », ou « Lalleh » que são as duas formas de saudação, quando parei a bicicleta vieram logo me saudar com um « passou-bem » com as suas mãozinhas tão sujitas mas cheias de carinho, salvo aquela menina que habitualmente gritava mais forte, ficou estática e incrédula… Deixei a bicicleta aproximei-me, peguei na sua mãozinha e disse-lhe : Lapia ! Rii le na wa (Como te chamas ?).
São momento simples como este que me permitem tocar a bondade e a gratuidade de Deus para connosco. Celebrar o Natal, sinto que é hoje mais que nunca encontrar tempo para parar e saudar Jesus que é à margem do caminho ! Ele chama-nos, grita-nos e a maior parte das vezes espera-nos em silencio… no idoso que vive ao nosso lado, no sem-abrigo, no colega de trabalho… na Igreja por onde passamos todos os dias… Não custa nada, são só mais 3 ou 4 minutitos… que podem mudar o sentido do nosso dia e da nossa vida. As vezes não é fácil, pois a manjedoura é muito mais que um sinal « romântico », ela é expressão de austeridade, ela é sinal de vida…!
Teria muitos mais momentos a partilhar convosco, mas já me sinto outra vez cansadito, o paludismo é mesmo chato… e ainda bem se não escreveria de mais. Obrigado pela vossa paciência, amizade e oração.

Desejo-vos um Santo Natal, rezo por cada um de vós e vossas famílias, acolho sempre com muita alegria as vossas notícias. Peço-vos desculpa se não vos envio um postalito ou uma foto, no próximo ano se Deus quiser enviarei. Se conheceis pessoas amigas que não têm mail peço-vos para imprimir e passar esta mensagem, se achardes bem.

Que Jesus-menino vos abençoe e proteja,
vos conceda um Natal cheio de paz, momentos para parar…
e um feliz ano 2009.

Um abraço amigo deste vosso irmão e amigo.

P. João Costa

P.S. A minha morada continua a ser a Doba aonde frequento o curso de introdução à língua e cultura. Em princípio em Janeiro saberei para onde irei viver os próximos anos. Depois darei notícias. Para já, por opção, não quis ter telemóvel, nem computador… todas essas coisas importantes, mas que senti não me ajudariam a « aterrar », por isso peço-vos que compreendais o meu silêncio que não é esquecimento ! Obrigado e até um dia destes.

P. João Rodrigues da Costa
Missionnaires Comboniens
Paroisse Daniel Comboni
Mission Catholique
B.P. 22 - DOBA
TCHAD

1 comentário:

victor angelo disse...

Padre Joao,

Quando tiver oportunidade, entre em contacto comigo em N'Djamena, telefone 69 00 130.

Victor Angelo
Nacoes Unidas Chade MINURCAT